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Frei José Luís Caetano de Faria Matos

Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Barcelos [1741-1751]

Filho de Manuel de Mariz de Faria e de sua mulher, D. Isabel de Faria e Canna, naturais de Barcelos, Frei José Luís Caetano de Faria e Matos era neto, pela parte paterna, de André de Mariz de Faria, abade das igrejas de S. Mamede de Arcozelo e de S. Simão de Vila Frescaínha, e, pela materna, de João Leite de Faria e de D. Margarida Monteiro da Costa.

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Figura 1. Excerto da diligência de habilitação de familiar do Santo Ofício de José Luís Caetano de Faria e Mattos (1714-04-23)

 

Exerceu a sua atividade como provedor entre 1741 e 1742 e, mais tarde, no ano de 1751, conforme atestam os registos da época. No Livro de Recibos da instituição referente a 1742, figuram os irmãos que o acompanhavam na Mesa: o tesoureiro José Francisco, o seleiro Manuel Fernandes e o escrivão, o Doutor Paulo Pereira do Lago.

Recibo

Figura 2. Recibo da Santa Casa da Misericórdia desta villa de Barcellos do anno de 1742, sendo provedor Frey Joze Luis Caetano de Faria e Mattos, tizoureiro Joze Francisco, selleyreiro Manuel Fernandez, escrivão o Doutor Paulo Pereira do Lago, fl. 24.

 

O Fim do Despacho às Cegas

Gerir o património de uma Santa Casa da Misericórdia exigia, no passado, muito mais do que a boa vontade dos seus provedores: exigia rigor, método e uma implacável fiscalização das contas. Numa notável demonstração de lucidez e autocrítica, o provedor Frei José Luís Caetano de Faria Matos promoveu uma viragem decisiva na administração local, combatendo a inércia institucional que, durante anos, votara rendas e legados à deriva do improviso.

Assumindo que ele próprio — tal como os seus antecessores — havia incorrido no erro de governar sem o devido escrutínio, instituiu registos dedicados ao controlo rigoroso dos dinheiros a juro, dos foros e da gestão do celeiro. O objetivo era claro: travar os prejuízos, apurar o rendimento líquido real e separar as obrigações fixas do consumo festivo ou das distribuições em espécie.

Ao recusar continuar a "despachar às cegas", o provedor legou aos seus sucessores um princípio basilar de boa governação: o de que o serviço aos mais desfavorecidos — as obras de misericórdia — só pode ser verdadeiramente sustentável quando assenta em contas claras e num património salvaguardado.

 

A Voz do Provedor (1751)

Este livro há-de servir para o assento de todo o dinheiro que anda a juro que é de legados que está obrigada a Santa Casa a mandar satisfazer, e por memória dos senhores provedores que têm sido se não pode averiguar que dinheiro é deste ou daquele legado, e não devo eu de ficar de fora deste absurdo porque também o tenho sido, sem fazer o que agora faço, com tanto prejuízo da Santa Casa ou de suas rendas, porque se isto se fizesse há mais tempo, talvez que estivessem as ditas rendas em melhor arrecadação; também há-de servir de fólio. a fólio até de foros que se pagam a dinheiro e como nada se move sem vontade de Deus Nosso Senhor, não permitiu até ao presente se fizesse o que agora se faz, tudo são altos juízos seus, ele permita que por este respeito vão em aumento as rendas de Nossa Senhora para com elas se administrarem as obras de misericórdia que ela for servida e se pede muito aos senhores provedores futuros que mandem ou vejam no cabo do ano ou no princípio dela, o que se tem arrecadado ou o que se não arrecadou para verem o como se pode despender e não despachar às cegas como até aqui se tem feito e também é preciso logo ver o livro que também se fez agora do celeiro, para ver o que monta cobrado que seja o pão e trigo e tirar o que se costuma despender em pão nas festas do ano, e as ordinárias que se dão em espécie e o que fica líquido. E feito isto, ver mais os gastos certos a que está a Santa Casa obrigada a satisfazer (...) O provedor José Luís Caetano de Faria e Matos.

Fonte: Arquivo Leonor, Registos de dinheiro a juros da Santa Casa da Misericórdia de Barcelos (1751-06-1777)

 

E aqui fica um testemunho notável de transparência e bom senso no Antigo Regime, provando que a verdadeira solidariedade começa sempre pelo rigor e pela justiça na gestão do que é de todos.

Até à próxima rubrica!

(Texto: Alexandra Vidal) 

SCM Barcelos, 02 OUTUBRO 2026