O Carnaval é uma das festas do ano mais aguardadas, na Santa Casa, não só por miúdos, mas também graúdos.
Nas estruturas residenciais para pessoas idosas (ERPI), houve chefes de cozinha, mensagens de sensibilização porque “Não há um planeta B”, índios, árabes, médicos e marinheiros e, ali perto, até a praia Baywatch se mudou para a Unidade de Cuidados Continuados Integrados (UCCI) de Santo António. Tudo isto acompanhado de boa disposição e bons momentos musicais proporcionados por vários convidados musicais, aos quais agradecemos a generosidade.
Lar do Centro Social Comendadora Maria Eva Nunes Corrêa
– Os chefes de cozinha confecionaram uma deliciosa ementa e, à tarde, já com a visita das crianças, houve música, cor, grande animação e brincadeiras –


























































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Lar da Misericórdia e Lar Rainha Dona Leonor
– Festa decorreu sob o mote “Não há um planeta B”, houve desfile e a animação musical esteve a cargo de Cosme Campinho –











































































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Lar Nossa Senhora da Misericórdia e Centro de Dia
– Sob o tema “Índios”, a festa contou com bons momentos e a animação musical de Victor Rodrigues –



















































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Lar de Santo André
– Não faltaram árabes, médicos, marinheiros e outros mascarados a desfilar. A animação musical, essa, esteve a cargo do grupo Amigos Leais de Barcelos –























































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UCCI de Santo António
– “Praia Baywatch” foi o tema da festividade, que contou com representação teatral, um pezinho de dança e a animação musical do grupo Motocavaquinhos –



















































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SCM Barcelos, 23-02-2023
Recuamos à madrugada gelada de 8 de janeiro de 1877. O silêncio de Barcelos é quebrado pelo estalar das chamas que consomem a sacristia desta Santa Casa. Na manhã seguinte, o cenário é de desolação: paramentos de seda, missais e objetos sagrados reduzidos a cinzas. Mas o verdadeiro mistério começa aqui. De onde veio o fogo? Da cozinha? Impossível! De uma lamparina devota na sacristia? As atas garantem: ali nunca houve luz. O fogo terá caído do teto de um corredor vazio e sem uso? Nesta visita, convidamo-lo a seguir o rasto deste 'sinistro' que desafiou as autoridades da época. Descubra como a Mesa da Misericórdia, entre o entulho e as cinzas, ergueu de novo o que as chamas devoraram, transformando a perda em património que hoje podemos admirar. Através da leitura minuciosa das Atas da Mesa desta época, reconstruímos hoje não apenas o edificado, mas também a resiliência desta instituição. Da decisão urgente de adquirir novas vestimentas de damasco branco e vermelho à substituição do soalho de madeira do altar-mor por pedra — para que o fogo nunca mais tivesse onde se alimentar. Livro de Atas da Mesa (1875-1884) Fl. 32 Aos dez de janeiro de 1877 reunida a mesa da presidência do seu provedor, como tinha sido acordado na sessão precedente. Expostas as averiguações até agora feitas para se vir no conhecimento de qual fosse a causa do incêndio, nada se tem podido apurar em verdade até agora, porque pela cozinha não era possível comunicar-se; e esta versão fica completamente aniquilada. Outra versão é que pegara na sacristia por uma lamparina que nela ardia em devoção a uma imagem; mas também fica aniquilada esta versão porque não havia na sacristia lamparina, nem ali ficava nem ficou nunca luz; alem disto, segundo o parecer das primeiras pessoas que acudiram, o fogo não irrompeu da sacristia, mas caiu nela do departamento que lhe ficava por cima; porém, esse departamento que era um pequeno corredor, sem uso, ou passagem que por ele não era necessária para coisa alguma, e separado do edifício do hospital, que não comunicava com ele, não tinha movel algum, ou objeto que pudesse facilmente ser incendiado: e a ser por ali comunicado o fogo com a sacristia, não o podia ser casualmente, mas a mesa recusa-se por enquanto a acreditar que houvesse malvadez que a tanto tentasse. Suspendendo por tanto o seu juízo, continuará a fazer as averiguações que estiverem ao seu alcance. Em seguida, declarou o senhor provedor que tinha mandado desentulhar e continuava a remover os destroços feitos pelo incendio, e a dar outras providencias tendentes a desobstruir o local do sinistro. Resolveram que se mandassem fazer desde já os paramentos de primeira necessidade para não haver interrupção na celebração das missas da igreja desta Santa Casa, e que o senhor tesoureiro entendendo-se com o senhor mordomo das capelas tomasse assento do número e qualidade das vestes sacerdotais de maior urgência para o Santo Sacrifício da Missa, e provesse com a maior brevidade à aquisição Fl. 32v Delas, bem como de algum objeto indispensável ao mesmo Santo Sacrifício, e à administração do Sagrado Viático aos enfermos do hospital, e que tenham sido consumidos pelo incendio. Resolveram que se eliminasse do inventario um pálio preto de seda velhíssimo e incapaz de servir já, há muito tempo, por se achar roto e ser impraticável nele qualquer conserto, e não podendo ter outro destino se não o de juntar-se aos farrapos inúteis. Fl. 34v (Ata de 23 de janeiro de 1877) Foi apresentada uma relação de todos os objetos que foram devorados pelo incendio que teve lugar na noite da madrugada do dia oito do corrente, incendi oque se manifestara na sacristia da igreja desta Santa Casa (…). Resolveu-se que ficasse aqui consignado que a Mesa, apesar das suas investigações, não tem podido averiguar qual fosse a causa ou origem daquele incendio, e que as autoridades competentes que abriram investigação e conhecimento acerca daquele sucesso, também nada puderam averiguar. Fl. 58v (Ata de 13 de julho de 1878) (…) o incendio que devorou todos os paramentos e mais objetos ali existentes (…) fossem consignados neste orçamento as verbas precisas para duas vestimentas de damasco, uma branca e outra vermelha, uma capa de asperges de damasco, preta, uma toalha de lavatório de pano de linho, dez mesas de corporais e sanguinhos, Fl. 59 um missal, um caderno dos Santos novos adjuntos ao mesmo missal, uma banqueta de ramos com as competentes laçadas para o altar-mor e bem assim uma banqueta de castiçais com o competente crucifixo, mais duas banquetas de castiçais com os competentes crucifixos para os dois altares laterais. Resolveram também que se levasse a efeito as pequenas obras que tinham sido deliberadas na última parte da sessão de 31 de agosto do ano passado que vem a ser a substituição do soalho do altar-mor por pedra devidamente aparelhada e o tapamento dos confessionários do corpo da igreja pelos lados extremos (…). Resolveu-se também que entrasse para o orçamento a despesa para a aquisição de uma cozinha de ferro nas condições de servir o hospital, por isso que a atual, além de estar nas condições precisas se acha arruinada e não pode continuar no serviço (…). Verbas necessárias para se ultimar a sacristia que desapareceu com o incendio e que se acha reedificada pelo que respeita a obra de pedreiro, e que se ultime também o departamento destinado ao deposito de cadáveres.
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O Rosto da História espelhos do passado: Identidade e Memória nos Livros de doentes do Hospital da Santa Casa da Misericórdia de Barcelos Houve um tempo em que entrar num hospital era mais do que um ato clínico; era o registo solene de uma existência perante a caridade e a história. No Arquivo da Santa Casa da Misericórdia de Barcelos, os livros de movimentos de doentes do século XVIII funcionam como autênticos portais. Numa era sem bilhetes de identidade ou fotografias, como se imortalizava quem chegava? No século XVIII, a entrada no Hospital da Santa Casa da Misericórdia de Barcelos era um resgate do anonimato, resultando em descrições físicas — os traços do rosto, os sinais particulares — que conferem a estes antepassados do século XVIII uma presença física quase palpável. Mais do que nomes, estes livros guardam a essência da condição humana perante o tempo. É a identidade física, em toda a sua dignidade e fragilidade, que aqui se perpetua. O Espelho do Quotidiano — o fascínio deste documento reside também no minucioso inventário de bens. Ao descrever as roupas com que os enfermos davam entrada, o livro torna-se um autêntico "espelho do passado". Por meio da textura de um tecido, do corte de uma capa ou do detalhe de um adereço, conseguimos visualizar a estratificação social e a cultura material da época. Vestir aquela pessoa com palavras é, simbolicamente, devolvê-la ao seu contexto vivo e social. Visitar este livro é, portanto, encontrar Barcelos no século XVIII pelos olhos de quem acolhia. É um documento que não guarda apenas dados, mas também a essência de quem fomos, oferecendo-nos a oportunidade única de olhar para trás e reconhecer, no papel, a humanidade daqueles que nos precederam. Estes documentos são exemplares magníficos do que descreveu anteriormente: uma mistura de burocracia hospitalar, inventário de moda popular e retrato físico. Vamos conhecer algumas destas pessoas? António Pereira (Oficial da Casa de Bragança) Este registo é particularmente interessante pela ocupação do doente. Nome: António Pereira desta Vila, oficial da Casa de Bragança. Morada na Rua Nova. Idade de 50 anos. Fisionomia: Estatura ordinária, cara redonda, olhos pretos, muita barba. Bens/Vestuário: Traz capote de pano, vestido de saragoça. Datas: Entrou neste Hospital a 11 de Maio de 1769. Saiu a 23 de Maio de 1769. Nicolau da Costa Nome: Nicolau da Costa desta vila. Idade de quarenta e cinco anos. Fisionomia: Estatura ordinária, magro, cara cumprida, cabelo preto, olhos pardos. Bens/Vestuário: Trazia hum capote de saragoça já velho e uma casaca de pano escuro, calções. Datas: Admitido a este Hospital aos quatro de janeiro de 1768. Polónia Lopes Este registo é muito rico na descrição das cores e tecidos femininos. Nome: Polónia Lopes da Fonte de Baixo. Fisionomia: magra, cara comprida, olhos azuis e nariz comprido. Bens/Vestuário: saia de riscas velha, uma capa velha de baeta preta, as feições cor branca, cara comprida, olhos azuis e nariz comprido. Datas: entrou neste Hospital aos 12 de janeiro] de 1768. Saiu aos 20. E as curiosidades não ficam por aqui: A "Saragoça", um tecido de lã muito resistente e comum nas capas e capotes do século XVIII. A descrição dos "olhos azuis" e "nariz comprido" é um exemplo perfeito daquele "espelho do passado" que mencionamos — quase conseguimos imaginar o rosto dela ao entrar no hospital no inverno de 1768. Estes tesouros documentais não estão guardados apenas em estantes fechadas. Para os investigadores, curiosos ou descendentes que desejem explorar estes "espelhos do passado", o Arquivo da Santa Casa da Misericórdia de Barcelos disponibiliza o acesso através da plataforma Atom. Lá, poderá folhear virtualmente estes Livros de Movimentos de Doentes, cruzando as descrições físicas com os contextos históricos de cada época. É uma viagem única pela memória da cidade e da assistência, agora à distância de um clique no Arquivo Leonor: https://atom.misericordiabarcelos.pt/index.php/napc-2m8c-q4kw Fonte: Os trajes e os costumes populares portugueses no século XIX, representados no livro "Le costume historique", de Albert Racinet e publicado em 1888, Disponível em https://archive.org/details/gri_33125008496693 E, já agora, repararam que o calçado não é mencionado? Sim, é verdade. Muitas pessoas, se não a maioria, andavam descalças. Até à próxima rubrica! [Texto: Alexandra Vidal]
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