Aos sete dias de julho do ano de oitenta e cinco fez cabido o senhor Francisco de Gouveia provedor deste dito ano com os irmãos da mesa e assentaram que o pão que se pedisse aos domingos pela vila da canastra que se não repartisse nem bolisse com ele até serem juntos todos em cabido e ele provedor e irmãos o repartirem como fosse serviço de Deus e da Santa Casa como mandam para salvação de suas consciências. E eu Manuel que o escrevi.

Sabia que, sendo o pão o sustento base das populações, desde os seus primórdios, as Misericórdias asseguravam que, mesmo nos períodos de maior escassez ou crise, os "pobres envergonhados" e os desvalidos da comunidade não ficassem desamparados?
Ora, a Santa Casa da Misericórdia de Barcelos levava este assunto com a maior seriedade e reunia com o Provedor e todos os Irmãos da Mesa, todos os domingos depois do peditório que era feito pela vila, em que andavam pessoas com canastras a fazer o peditório. Ora, este pão só podia ser distribuído com todos presentes, de forma que a sua distribuição fosse justa e chegasse efetivamente a quem mais necessitava.
As Misericórdias, fundadas sob o espírito das 14 obras de misericórdia (sete corporais e sete espirituais), têm na distribuição do pão uma das suas missões mais emblemáticas e ancestrais. Esta tarefa vai muito além do simples ato de alimentar; é um exercício de dignidade e solidariedade social que reflete o compromisso de "dar de comer a quem tem fome".
Tal como Cristo partiu o pão e o deu aos Seus, a Santa Casa da Misericórdia de Barcelos ainda hoje, passados 441 da data deste documento, continua a converter este alimento simples num símbolo vivo de esperança, comunhão através da sua equipa de apoio social que num trabalho constante apoia aqueles que chegam até ela.
SCM Barcelos, 30-01-2026