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Medicação há mais de um século

No século XVIII, a farmácia em Portugal — então denominada "botica" — era um ofício artesanal e místico. Num mundo onde o galenismo (a teoria dos humores) ainda dominava, a modernização era lenta e as preparações eram feitas manualmente, muitas vezes no silêncio dos mosteiros, sob a rigorosa fiscalização do físico-mor. O grande ponto de viragem ocorreu com a Reforma Pombalina (1772) e a publicação da primeira farmacopeia oficial em 1794, que começou a afastar as poções mágicas em favor da ciência.

Antes da revolução química de Antoine Lavoisier (1743–1794), o "Pai da Química Moderna", os conventos eram os grandes centros de saber farmacêutico. Obras como a Pharmacopea Lusitana (1704), de D. Caetano de Santo António, mostram como a tradição galénica se começava a adaptar aos novos modelos científicos.

Ao explorarmos o Livro de Receituário da Santa Casa da Misericórdia de Barcelos (1836-1840), encontramos remédios fascinantes que misturam botânica e química antiga:

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Ora aqui temos o Óleo de Amêndoas Doces - um clássico da hidratação e nutrição. Já naquela época era essencial pelas suas propriedades anti-inflamatórias e versatilidade, servindo de base para inúmeras fórmulas cosméticas e curativas.

A Raiz de Alteia (Althaea officinalis L.), reconhecida na Farmacopeia Portuguesa e Brasileira, era o "xarope" da época. Atuava como demulcente para acalmar a tosse seca e irritações da garganta ou do estômago. Indicada para tosse seca, irritação da mucosa oral/faríngea e inflamações gástricas.

E que tal uma Pomada de Saturno? Na alquimia, "Saturno" era o código para o chumbo. Esta pomada (acetato de chumbo misturado com banha de porco) era usada para afeções cutâneas. Hoje sabemos da toxicidade do chumbo, mas na altura era um pilar da farmácia galénica.

Era preparada com acetato de chumbo (anteriormente conhecido como sal de saturno ou cerusa) misturado com uma base de pomada (geralmente gorduras como banha de porco ou bases cerosas). Dá para acreditar?

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E, já agora, experimentamos um pouco de Quinino?

Um verdadeiro marco na medicina. Foi um dos primeiros medicamentos "alvo", atacando diretamente a causa da malária e salvando inúmeras vidas nos hospitais. Essencial para tratar a malária, tornando-se um dos primeiros "medicamentos específicos" que realmente atacavam a causa da doença. Sim, acreditem! Havia malária em Portugal!!!!

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E para terminar vai um cataplasma de linhaça (Linum usitatissimum)?

O remédio caseiro por excelência. Aplicado quente sobre a pele, este preparado de Linum usitatissimum era o alívio imediato para dores articulares, tendinites e inflamações, muitas vezes potencializado quando misturado com gengibre ou aplicado com calor. Vamos experimentar?

Até breve, com mais curiosidades do Arquivo Leonor!

 

Fonte: Livro de receituário para doentes do hospital da Santa Casa da Misericórdia de Barcelos – (1836-1840)

Disponível em: https://atom.misericordiabarcelos.pt/index.php/registo-de-receituario-para-doentes-do-hospital-1836-1840/edit#identityArea

 

Texto: Alexandra Vidal

SCM Barcelos, 19-02-2026

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