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Sabe como as pessoas doentes que chegavam ao hospital se vestiam?

O Rosto da História espelhos do passado: Identidade e Memória nos Livros de doentes do Hospital da Santa Casa da Misericórdia de Barcelos

 

Houve um tempo em que entrar num hospital era mais do que um ato clínico; era o registo solene de uma existência perante a caridade e a história. No Arquivo da Santa Casa da Misericórdia de Barcelos, os livros de movimentos de doentes do século XVIII funcionam como autênticos portais. Numa era sem bilhetes de identidade ou fotografias, como se imortalizava quem chegava?

No século XVIII, a entrada no Hospital da Santa Casa da Misericórdia de Barcelos era um resgate do anonimato, resultando em descrições físicas — os traços do rosto, os sinais particulares — que conferem a estes antepassados do século XVIII uma presença física quase palpável. Mais do que nomes, estes livros guardam a essência da condição humana perante o tempo. É a identidade física, em toda a sua dignidade e fragilidade, que aqui se perpetua.

O Espelho do Quotidiano — o fascínio deste documento reside também no minucioso inventário de bens. Ao descrever as roupas com que os enfermos davam entrada, o livro torna-se um autêntico "espelho do passado". Por meio da textura de um tecido, do corte de uma capa ou do detalhe de um adereço, conseguimos visualizar a estratificação social e a cultura material da época. Vestir aquela pessoa com palavras é, simbolicamente, devolvê-la ao seu contexto vivo e social.

Visitar este livro é, portanto, encontrar Barcelos no século XVIII pelos olhos de quem acolhia. É um documento que não guarda apenas dados, mas também a essência de quem fomos, oferecendo-nos a oportunidade única de olhar para trás e reconhecer, no papel, a humanidade daqueles que nos precederam.

Estes documentos são exemplares magníficos do que descreveu anteriormente: uma mistura de burocracia hospitalar, inventário de moda popular e retrato físico. Vamos conhecer algumas destas pessoas?

 

António Pereira (Oficial da Casa de Bragança)

António Pereira oficial da Casa de Bragança

Este registo é particularmente interessante pela ocupação do doente.

Nome: António Pereira desta Vila, oficial da Casa de Bragança.

Morada na Rua Nova.

Idade de 50 anos.

Fisionomia: Estatura ordinária, cara redonda, olhos pretos, muita barba.

Bens/Vestuário: Traz capote de pano, vestido de saragoça.

Datas: Entrou neste Hospital a 11 de Maio de 1769. Saiu a 23 de Maio de 1769.

 

Nicolau da Costa

Nicolau da Costa

Nome: Nicolau da Costa desta vila.

Idade de quarenta e cinco anos.

Fisionomia: Estatura ordinária, magro, cara cumprida, cabelo preto, olhos pardos.

Bens/Vestuário: Trazia hum capote de saragoça já velho e uma casaca de pano escuro, calções.

Datas: Admitido a este Hospital aos quatro de janeiro de 1768.

 

Polónia Lopes

Polónia Lopes

Este registo é muito rico na descrição das cores e tecidos femininos.

Nome: Polónia Lopes da Fonte de Baixo.

Fisionomia: magra, cara comprida, olhos azuis e nariz comprido.

Bens/Vestuário: saia de riscas velha, uma capa velha de baeta preta, as feições cor branca, cara comprida, olhos azuis e nariz comprido.

Datas: entrou neste Hospital aos 12 de janeiro] de 1768. Saiu aos 20.

 

E as curiosidades não ficam por aqui:

A "Saragoça", um tecido de lã muito resistente e comum nas capas e capotes do século XVIII.

A descrição dos "olhos azuis" e "nariz comprido" é um exemplo perfeito daquele "espelho do passado" que mencionamos — quase conseguimos imaginar o rosto dela ao entrar no hospital no inverno de 1768.

Estes tesouros documentais não estão guardados apenas em estantes fechadas. Para os investigadores, curiosos ou descendentes que desejem explorar estes "espelhos do passado", o Arquivo da Santa Casa da Misericórdia de Barcelos disponibiliza o acesso através da plataforma Atom.

Lá, poderá folhear virtualmente estes Livros de Movimentos de Doentes, cruzando as descrições físicas com os contextos históricos de cada época. É uma viagem única pela memória da cidade e da assistência, agora à distância de um clique no Arquivo Leonor:

https://atom.misericordiabarcelos.pt/index.php/napc-2m8c-q4kw

 

Costumes de Portugal

Fonte: Os trajes e os costumes populares portugueses no século XIX, representados no livro "Le costume historique", de Albert Racinet e publicado em 1888,

Disponível em https://archive.org/details/gri_33125008496693

 

E, já agora, repararam que o calçado não é mencionado? Sim, é verdade. Muitas pessoas, se não a maioria, andavam descalças.

Até à próxima rubrica!

 

[Texto: Alexandra Vidal]

SCM Barcelos, 16-04-2026

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