
Por trás da sobriedade dos registos contabilísticos, esconde-se o verdadeiro pulsar de uma comunidade. O Livro de Despesa mais antigo da Santa Casa da Misericórdia de Barcelos, compreendido entre 1728 e 1745, é muito mais do que uma listagem de entradas e saídas de capital: é um valioso testemunho da vida quotidiana, das redes de solidariedade, da religiosidade e do funcionamento institucional da vila setecentista.
Este manuscrito detalha a gestão financeira da instituição — desde a cobrança de juros e foros, dentro e fora do concelho, até aos encargos com as festividades dos santos patronos. Revela também o compromisso assistencial da Misericórdia através do financiamento de enterros e sufrágios, da manutenção do templo, do pagamento dos seus oficiais e, sobretudo, do apoio aos mais vulneráveis, fornecendo vestuário e alimentação a pobres e presos.

Recebeu o irmão celeireiro Manuel de Faria pela rasa corrente, oitocentas cinquenta e quatro rasas e meia e meio quarto e pelo alqueire, quinhentas e trinta e uma e meia, (…) das quais se despenderam em ordinárias e esmolas, nos jantares dos presos, dia dos Fiéis de Deus, a saber, ao capelão mor da Casa José Vieira de Abreu cinquenta e duas, ao servente Manuel Coelho cinquenta e duas, ao moço da sacristia vinte e seis, ao hospitaleiro da Casa trinta, ao cirurgião da Casa Simão Alves quarenta, e para se cozer para o jantar dos presos, em dia de Todos os Santos, e para as esmolas que na Casa se dão aos pobres em dia dos Fiéis de Deus, quarnta; e a pessoas particulares em esmolas sessenta e oito rasas e aos presos que se cozeram pelo Natal e Páscoa (…).

Pão, Esmolas e Solidariedade ou como se geria o celeiro da Misericórdia
Os registos do celeiro ilustram com precisão a distribuição dos bens essenciais na vila. Numa das passagens, o irmão celeireiro Manuel de Faria contabiliza a entrada e o consumo de cereais para apoiar a comunidade e os funcionários da instituição:
«Recebeu o irmão celeireiro Manuel de Faria pela rasa corrente, oitocentas cinquenta e quatro rasas e meia e meio quarto e pelo alqueire, quinhentas e trinta e uma e meia (…) das quais se despenderam em ordinárias e esmolas, nos jantares dos presos, dia dos Fiéis de Deus, a saber: ao capelão-mor da Casa, José Vieira de Abreu, cinquenta e duas; ao servente Manuel Coelho, cinquenta e duas; ao moço da sacristia, vinte e seis; ao hospitaleiro da Casa, trinta; ao cirurgião da Casa, Simão Alves, quarenta; e para se cozer para o jantar dos presos, em dia de Todos os Santos, e para as esmolas que na Casa se dão aos pobres em dia dos Fiéis de Deus, quarenta; e a pessoas particulares em esmolas, sessenta e oito rasas, e aos presos que se cozeram pelo Natal e Páscoa…»
Um requinte encomendado: A Tumba Nova e a Bandeira Perdida
Entre as várias verbas inscritas, destaca-se a encomenda de materiais nobres para as cerimónias fúnebres e processionais. Embora a bandeira descrita não tenha chegado aos nossos dias, o manuscrito perpetua o seu luxo e opulência originais:
«Despendeu para o custo da tumba nova e bandeira e gastos que se fizeram na condução até se recolher na Santa Casa: duzentos e setenta e dois mil setecentos e onze réis.»
Para vinte côvados de veludo subido, a preço de dois mil e cinquenta o côvado: quarenta e cinco mil réis.
Para vinte e nove varas e uma oitava de franja de ouro de França, à razão de mil setecentos e cinquenta réis a onça, e duas oitavas de galão de ouro, à razão de mil e quinhentos e oitenta réis a onça (…)
Para nove côvados de olandilha preta, à razão de cento e sessenta réis o côvado…»
A Arte da escrita e a elegância nas Iniciais Ornamentadas
Para além do seu inestimável valor documental e histórico, o livro destaca-se também pelo rigor e apuro estético da escrita da época. As suas capitulares, ornamentadas com motivos florais entrelaçados em tinta-da-china — como a majestosa inicial de «Recibo da Santa Caza da Mizericordia desta villa de Barcellos do anno de 1734» — transformam a gestão contabilística numa verdadeira obra de arte caligráfica.
Venha descobrir a história viva guardada no Arquivo Leonor da Santa Casa da Misericórdia de Barcelos.

SCM Barcelos, 25-08-2026