A Gafaria de Barcelos
Na Idade Média, ser diagnosticado com lepra era um "bilhete de ida sem volta" para o isolamento. Em Barcelos, esse destino tinha um nome: a Gafaria de Santo André. Mas engana-se quem pensa que era um lugar de tristeza absoluta.
A Gafaria de Barcelos é um marco fundamental na história da assistência social e da saúde pública medieval em Portugal. Estes locais eram estabelecimentos destinados ao isolamento e tratamento de doentes com lepra (gafos), uma patologia que, na Idade Média, carregava um pesado estigma religioso e social. A criação de gafarias fora das muralhas das cidades era uma prática comum para garantir o isolamento profilático, protegendo a população sã.
Situada fora da cidade, junto ao Rio Cávado, no lugar da Ordem, que ficava na estrada que ia da Fonte de Baixo para o Casal de Nil ou do Nique, junto à Ermida de Santo André. Uma localização estratégica por estar afastada do núcleo urbano principal, mas próxima o suficiente para receber esmolas e apoio da comunidade.
A Gafaria de Barcelos ganhou especial relevância sob o patrocínio da Casa de Bragança. D. Afonso, o 1.º Duque de Bragança e 8.º Conde de Barcelos (1377–1461), demonstrou particular interesse na assistência aos desvalidos.
Mas como era a vida dentro de uma gafaria?
A vida dentro da gafaria era regida por normas rigorosas. Tinham uma organização interna própria, muitas vezes com um "procurador" ou "juiz dos gafos" que geria os seus bens. Apesar do isolamento, os leprosos não estavam totalmente inativos. Muitas vezes, eles próprios geriam os bens da gafaria, realizavam compras e vendas, e cultivavam terras para a sua subsistência, tudo dentro do perímetro desta.
O complexo era composto por pequenas habitações para os doentes e uma capela central. O padroeiro, Santo André, era frequentemente invocado nestas instituições.
Estabelecida fora das muralhas para evitar o contágio, mas próxima de vias de passagem (como o Caminho de Santiago) para facilitar a recolha de esmolas, que eram a principal fonte de sustento. A distribuição geográfica das terras da gafaria abrangia 35 freguesias diferentes, que se distribuíam num raio de 20 a 30 quilómetros.
Em 1464, segundo os Tombos da Gafaria[1] aparece-nos o nome dos gafos que moravam na gafaria. Eram apenas dois, o que confirma o facto de a lepra estar em recessão: João Afonso e Martim Lourenço.
A 12 de maio de 1520, através de um Alvará régio do rei D. Manuel I, a ordenar, aos juízes, vereadores, procurador e homens bons de Barcelos, a união do hospital e gafaria à Santa Casa da Misericórdia de Barcelos, cuja administração passaria a estar sob jurisdição dos oficiais da Misericórdia.
A passagem da gestão para a Misericórdia de Barcelos em 1520 marcou o início de um controlo mais rigoroso e de uma assistência mais próxima. Documentos raros mostram-nos casos reais, como o de Pedro Gil, cuja família foi vítima da doença, restando apenas uma filha órfã que a Misericórdia se comprometeu a alimentar.
Mas em 1593, através da leitura do livro dos acórdãos e eleições da Santa Casa da Misericórdia de Barcelos (1584-1627]), no fl. 61v temos notícia de uma herança de uma família de leprosos pela Mesa da Santa Casa da Misericórdia de Barcelos, vejamos:
Consegue ler o que diz aqui? Este documento com mais de 400 anos conta a história de uma família de Barcelos...
Figura 1 - Termo da Santa Casa da Misericórdia de Barcelos sobre a herança de uma mulher e seus filhos que morreram na gafaria (1593). Fonte: Arquivo Leonor, Livro dos acórdãos e eleições da Santa Casa da Misericórdia de Barcelos 1584-1627, fl. 61v. disponível em https://atom.misericordiabarcelos.pt/index.php/297y-w5d5-tq8t
Nós ajudamos, estamos aqui para isso:
(…) Vendeu-se nesta casa uma certa herança que havia da freguesia de Santo André de Palme da segunda mulher e filhos de Pedro Gil, a qual mulher e um seu filho Gonçalo morreram na gafaria e ficou uma filha que já está enferma e se vendeu juntamente a herança de todos três por seis mil e duzentos reis e fica esta casa obrigada a pagar cada um ano à dita moça órfã um quarto de pão ou o que se achar pelo inventário (…).
Com o passar dos séculos, o declínio da lepra levou à transformação destas estruturas. Em Barcelos, tal como noutras localidades, o património da gafaria foi progressivamente integrado noutras instituições de caridade ou hospitais da Misericórdia, perdendo a sua função original de leprosaria mas mantendo o seu legado de assistência aos pobres.
[1] A publicar ainda este ano pela Santa Casa da Misericórdia de Barcelos.
(Autoria: Alexandra Vidal)
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