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O Enigma da Madrugada de 1877 na Igreja da Santa Casa de Barcelos

Recuamos à madrugada gelada de 8 de janeiro de 1877. O silêncio de Barcelos é quebrado pelo estalar das chamas que consomem a sacristia desta Santa Casa. Na manhã seguinte, o cenário é de desolação: paramentos de seda, missais e objetos sagrados reduzidos a cinzas.

Mas o verdadeiro mistério começa aqui. De onde veio o fogo? Da cozinha? Impossível! De uma lamparina devota na sacristia? As atas garantem: ali nunca houve luz. O fogo terá caído do teto de um corredor vazio e sem uso?

 

Nesta visita, convidamo-lo a seguir o rasto deste 'sinistro' que desafiou as autoridades da época. Descubra como a Mesa da Misericórdia, entre o entulho e as cinzas, ergueu de novo o que as chamas devoraram, transformando a perda em património que hoje podemos admirar.

Através da leitura minuciosa das Atas da Mesa desta época, reconstruímos hoje não apenas o edificado, mas também a resiliência desta instituição. Da decisão urgente de adquirir novas vestimentas de damasco branco e vermelho à substituição do soalho de madeira do altar-mor por pedra — para que o fogo nunca mais tivesse onde se alimentar.

 

Livro de Atas da Mesa (1875-1884)

 

Fl. 32

Aos dez de janeiro de 1877 reunida a mesa da presidência do seu provedor, como tinha sido acordado na sessão precedente. Expostas as averiguações até agora feitas para se vir no conhecimento de qual fosse a causa do incêndio, nada se tem podido apurar em verdade até agora, porque pela cozinha não era possível comunicar-se; e esta versão fica completamente aniquilada.

Outra versão é que pegara na sacristia por uma lamparina que nela ardia em devoção a uma imagem; mas também fica aniquilada esta versão porque não havia na sacristia lamparina, nem ali ficava nem ficou nunca luz; alem disto, segundo o parecer das primeiras pessoas que acudiram, o fogo não irrompeu da sacristia, mas caiu nela do departamento que lhe ficava por cima; porém, esse departamento que era um pequeno corredor, sem uso, ou passagem que por ele não era necessária para coisa alguma, e separado do edifício do hospital, que não comunicava com ele, não tinha movel algum, ou objeto que pudesse facilmente ser incendiado: e a ser por ali comunicado o fogo com a sacristia, não o podia ser casualmente, mas a mesa recusa-se por enquanto a acreditar que houvesse malvadez que a tanto tentasse.

Suspendendo por tanto o seu juízo, continuará a fazer as averiguações que estiverem ao seu alcance. Em seguida, declarou o senhor provedor que tinha mandado desentulhar e continuava a remover os destroços feitos pelo incendio, e a dar outras providencias tendentes a desobstruir o local do sinistro.

Resolveram que se mandassem fazer desde já os paramentos de primeira necessidade para não haver interrupção na celebração das missas da igreja desta Santa Casa, e que o senhor tesoureiro entendendo-se com o senhor mordomo das capelas tomasse assento do número e qualidade das vestes sacerdotais de maior urgência para o Santo Sacrifício da Missa, e provesse com a maior brevidade à aquisição

 

Fl. 32v

Delas, bem como de algum objeto indispensável ao mesmo Santo Sacrifício, e à administração do Sagrado Viático aos enfermos do hospital, e que tenham sido consumidos pelo incendio. Resolveram que se eliminasse do inventario um pálio preto de seda velhíssimo e incapaz de servir já, há muito tempo, por se achar roto e ser impraticável nele qualquer conserto, e não podendo ter outro destino se não o de juntar-se aos farrapos inúteis.

Fl. 34v

(Ata de 23 de janeiro de 1877)

Foi apresentada uma relação de todos os objetos que foram devorados pelo incendio que teve lugar na noite da madrugada do dia oito do corrente, incendi oque se manifestara na sacristia da igreja desta Santa Casa (…). Resolveu-se que ficasse aqui consignado que a Mesa, apesar das suas investigações, não tem podido averiguar qual fosse a causa ou origem daquele incendio, e que as autoridades competentes que abriram investigação e conhecimento acerca daquele sucesso, também nada puderam averiguar.

Fl. 58v

(Ata de 13 de julho de 1878)

(…) o incendio que devorou todos os paramentos e mais objetos ali existentes (…) fossem consignados neste orçamento as verbas precisas para duas vestimentas de damasco, uma branca e outra vermelha, uma capa de asperges de damasco, preta, uma toalha de lavatório de pano de linho, dez mesas de corporais e sanguinhos,

Fl. 59

um missal, um caderno dos Santos novos adjuntos ao mesmo missal, uma banqueta de ramos com as competentes laçadas para o altar-mor e bem assim uma banqueta de castiçais com o competente crucifixo, mais duas banquetas de castiçais com os competentes crucifixos para os dois altares laterais. Resolveram também que se levasse a efeito as pequenas obras que tinham sido deliberadas na última parte da sessão de 31 de agosto do ano passado que vem a ser a substituição do soalho do altar-mor por pedra devidamente aparelhada e o tapamento dos confessionários do corpo da igreja pelos lados extremos (…).

Resolveu-se também que entrasse para o orçamento a despesa para a aquisição de uma cozinha de ferro nas condições de servir o hospital, por isso que a atual, além de estar nas condições precisas se acha arruinada e não pode continuar no serviço (…). Verbas necessárias para se ultimar a sacristia que desapareceu com o incendio e que se acha reedificada pelo que respeita a obra de pedreiro, e que se ultime também o departamento destinado ao deposito de cadáveres.

 


SCM Barcelos, 17-04-2026

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